Fantasia ou Traje Medieval?

Este primeiro artigo lançado pela equipe da Moda Medieval, tem como objetivo elucidar a diferença existente entre o que vem a ser a fantasia e o traje medieval.

A palavra fantasia deriva do grego panthasia e significa obra de imaginação, idéia, devaneio, extravagância, entre outros que não convem citar, visto o nosso interesse primordial: a moda medieval. O traje denota o vestuário habitual, aquilo que se veste. E é nessa linha que daremos continuidade a este artigo.

Uma peça do vestuário, comumente associada ao período medieval é o espartilho, também conhecido como corpete, corset, ou corselet. Representada tipicamente como parte do traje da taberneira medieval, seu uso foi relatado já no século XII, durante o reinado de Henry I, contudo, como roupa íntima feminina.

Posteriormente, há relatos de que essas peças tenham sido usadas por homens, também como peça íntima usada para conferir-lhes uma silhueta mais acinturada. Seu uso externo está associado à cortesãs do século XV e, a partir do século XVI, pelas senhoras da nobreza.

Um fator que dificulta a replicação dos trajes medievais, além do desconhecimento da diferença entre trajes e fantasias, é a composição da mesma. As roupas medievais eram compostas por várias peças sobrepostas e de diferentes materiais, de acordo com a finalidade que possuíam. Vamos detalhar um pouco mais:

  • Roupas íntimas: as mulheres usavam faixas, de linho, não tingidos sobre os seios. Não havia roupas íntimas como conhecemos atualmente. Sobre estas vestes, usavam um camisão, ou chemise, que eram de linho ou seda, não tingidos (cru) e cuja limpeza era freqüente.

  • Roupas propriamente ditas: homens e mulheres usavam túnicas, de manga comprida e justa, e que podiam ultrapassar os pés, arrastando-se no chão, especialmente para as mulheres. Os tecidos variavam entre o linho, a lã, sendo os mais comuns, passando pelas sedas, brocados, satinés e outros de variadas cores. Estas peças, em geral, não eram lavadas para evitar a degradação do tecido e a perda das cores que, às vezes levavam meses para serem fixadas.

Um detalhe interessante, é que ao longo dos séculos que compreenderam o medievo, houve um encurtamento e ajustamento das vestes ao corpo, não nas vestimentas femininas, como nos dias atuais observamos, mas nas masculinas. Grande parte da pressão para a manutenção do volume e quantidade de tecidos nas vestes femininas ocorreu em função de pressões ideológicas exercidas pela igreja.

As túnicas masculinas (tunics) se verteram para cotes, cotehardies, mostrando cada vez mais as pernas, que eram cobertas por braies (meiões que chegavam até a virilha e eram presas à cintura). Ademais, os adereços ficaram cada vez mais coloridos e volumosos, chegando o que hoje conhecemos com fantasias de ‘bobos da corte’, mas que constituíam moda utilizada por pessoas comuns á época, apesar de não muito bem vistas por pessoas mais conservadoras da época (em especial, o clero).

Este movimento também foi observado entre as vestes femininas, mas de modo muito mais discreto e lento, de modo a marcar um pouco mais o colo e a cintura. As túnicas também evoluíram para cotehardies, bliauts e kirtles. Com um acréscimo crescente de cortes e padrões de estampagens.

Como sobrevestes, além dos conhecidos mantos e capas, haviam outros modelos que foram resgatados dos registros. Entre eles estavam o houppelande, o peliçon, o surcote, o sideless gown, etc.

Apesar das dificuldades naturalmente existentes para a recuperação das roupas - visto que os tecidos se desintegram rapidamente - o trabalho de recuperação de trajes a partir de sítios arqueológicos e de edificações históricas, além da pesquisa exaustiva de várias pinturas e iluminaturas contribuíram para mostrar o quão rico e intrigante pode ser o universo do vestuário medieval.

Carolina Alencar

Referências bibliográficas:

  • NORRIS, Herbert. Medieval costume e fashion. Mineola, New York; Dover Publication, 1999.
  • LEVENTON, Melissa (org.) História ilustrada do vestuário. São Paulo; Publifolha, 2009.

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